quinta-feira, 5 de agosto de 2010

Desvirginar as páginas.

Esse é o primeiro texto desse blog. Eu poderia me contentar com as frases do twitter, mas não possuo habilidade tão grande pra criar pequenas sínteses. Também não faz parte de meus dedos a produção industrial de textos, não escrevo o tanto que gostaria. Tentarei escrever todos os dias nesse mesmo horário. Nessa redoma de ponteiros crepusculares, nesse instante em que o sol se vai para voltar somente num amanhã que ainda não criou identidade, memória. Não será fácil ultrapassar essas linhas, há tempos que nada produzo. Não que eu tenha sido algum dia um prolífico escritor. No máximo saiam de minhas entranhas três pequenos textos por mês, não me recordo ter feito mais do que isso. Eu cursei ciências sociais, me formei em 2005. Não trabalho com nada relacionado a essa área. Muitos dos meus colegas me consideravam um aluno brilhante, alguns professores também. Modéstia a parte, acho que sempre fui mediano ao extremo. Eu era um cara esforçado e nada mais, tentando ir um pouco além daquilo que a sala de aula nos passava em forma de melodiosas palestras. Claro que nem todas as aulas eram melodiosas, muitas eram tediosas, outras ruidosas, algumas me tiravam a vontade de aprender. Durante quatro anos vivi em uma república com pouca estrutura. Eu e meus amigos abdicamos de internet, televisão, rádio e qualquer outro tipo de mídia eletrônica. O jornal escrito era a única porta que me mantinha ligado ao que estava acontecendo de "importante" fora do campus. Foram quatro anos mergulhado em textos complexos, numa vida cheia de reflexões, pedaladas, caminhadas intermináveis, comida fria, roupa mal lavada, conversas que atravessavam a noite, festas de terça e quinta-feira, tardes bem dormidas e noites mal-dormidas. Nessa época minha maior pretensão era fazer pós-graduação, eu queria traçar a tão aclamada carreira meteórica. Eu estava sob pressão. Meu pai estava quebrado, não havia mais condições econômicas de me manter onde quer que eu estivesse estudando. Foi nessa derradeira fase de pressões e incentivos que a minha precoce carreira acadêmica acabou. Não culpo meu pai, eu mesmo sabia que era hora de ganhar responsabilidades e ajudar a família a sobreviver. Eu mesmo me tirei da academia. Não tive incentivo de professores, os corredores da UNESP de Araraquara eram apenas corredores vazios, não tirei nada de lá que pudesse me fazer sentir pesquisador. Hoje vejo que realmente eu não passei de um fantasma a vagar pra lá e pra cá na procura de alguém que pudesse me auxiliar, antes eu pensava que os fantasmas eram os professores. Ironicamente, hoje eu sei que eu era o fantasma. Mesmo carregando esse ar pictórico de fantasma na memória, sei que nada foi em vão. Eu sentia grande sensação de pertencimento ao caminhar pelos corredores, pelas vias de acesso, pela biblioteca, pelos banheiros, anfiteatro, restaurante, pólo computacional, a sala do grupo de estudos, eu era estudante de lá com certeza. Hoje não mais, pois tudo passa e tudo que um dia foi familiar hoje não passa de vigas estranhas e salas repletas de desconhecidos. Não, hoje eu não sou mais um estudante de ciências sociais, apenas carrego a alegria de um dia ter sido e nada mais.

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